Carta à Fortaleza,
É impossível falar de tudo que um evento como a passagem dos teus 300 anos da vila de Fortaleza representa. Mas quero alinhar alguns sentimentos por ti. Em verdade, tem muito mais que os 300 anos da sua instituição à Vila da Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, data convencional do teu aniversário da cidade. Sabemos que havia muita gente, muita cultura, saberes e vidas nas gentes que aqui viviam nas margens dos Riacho Pajeú e Rio Ceará muito antes do colonizador pisar por aqui.
Se hoje dizemos que o Ceará é indígena e negro, é imperioso não apagar as formas de viver dos que aqui estavam antes da chegada dos europeus. Certamente, o assentamento daquilo que veio a ser Fortaleza tem mais de 300 anos. Um outro sentimento é que muitas vezes ao enaltecer a tua beleza de seu sol e de seu mar, esquece-se que essa cidade é fruto do sertão. Sua vida é uma vida conectada ao trânsito das pessoas e das culturas do sertão, das migrações, do trânsito sofrido dos que eram chamados de flagelados das secas e que foram aprisionados nos infames “currais de gente” – que depois viraram bairros – ou nas muitas instituições que a elite construiu para isolar os mais pobres.
Desde sempre, somos uma cidade de muitas cidades apartadas. As classes que vivem de seu trabalho, que migraram para cá nas secas ou na busca de vida melhor não podem ser esquecidas. Elas fizeram a cidade. A experiência da cidade para essas não foi generosa e muitas vezes continua não sendo. Somos ainda uma cidade de contrastes absurdos do IDH entre seus bairros, do acesso ao saneamento, à mobilidade, à natureza, aos serviços essenciais, à cultura. Uma cidade que por muito tempo vem expulsando as classes populares num movimento de periferização constante, criando os bairros chamados de Jardins ou de Parques e hoje de conjuntos. A lógica de afastar os mais pobres é secular. Tem muita cidade para lá da Perimetral.
Por isso, um sentimento que me invade é que a cidade não é uma coisa só. Portanto, quero escolher a cidade que quero lembrar e homenagear. Quero lembrar a cidade que luta, que trabalha, que reclama em ser melhor. A cidade dos que não se retiraram, dos que enfrentam a injustiça, dos que resolvem amar a natureza e defender Fortaleza dos que querem fazer da cidade uma mercadoria. A cidade das greves dos jangadeiros pela abolição, dos levantes populares contra as oligarquias, dos sindicatos, dos movimentos populares, dos rebeldes. Quero lembrar a cidade dos que fizeram ocupações de onde nasceram vilas e bairros populares, dos que conquistaram as ZEIS, dos que querem a moradia digna, o transporte como direito universal, a escola, o saneamento, a cultura, o trabalho, o verde.
Quero lembrar da cidade das mães que perderam seus filhos na violência e que lutam por Paz. Quero lembrar daqueles que fazem a paz em cada quebrada da cidade. Quero lembrar das juventudes, das mulheres e das crianças que sabem que não se vence a violência com mais violência, mas com justiça. Quero lembrar que Fortaleza se fez cidade entre rios e lagoas hoje soterradas e que tem gente lutando pelo que resta. Quero lembrar dos que se recusam a se conformar e incomodam as elites.
Por fim, quero lembrar que nesses anos todos nos forjamos como um povo que tem um traço perene. Pois bem sabemos no nosso íntimo de todas essas iniquidades e mesmo com isso, mantemos acesa a rebeldia, a criatividade e a invenção. Mesmo sabedores e vivedores das injustiças, em cada canto dessa cidade, há gente desafiando, criando, festejando, inventando, se jogando, fazendo coisas muito legais. Não desistimos de ver beleza e construir a beleza. Somos uma gente que não desistiu de si.
Se há uma cidade conservadora e aristocrática, cafona e opulenta que adora seus super prédios e muros altos, há outra cidade gaiata, atrevida, briguenta e altiva. Essa cidade altiva quer terra, teto, pão, paz, beleza, festa, praça, natureza, direitos. A fortaleza da nossa Fortaleza é uma gente teimosa que guarda a memória do sertão, da vontade de bem viver e que, apesar de muita coisa, ama o seu chão, ama as esquinas, as quebradas, as calçadas, os encontros. Ama o pôr do sol, o mar, o sal, o vento na cara. Ama dançar e cantar. Ama festejar suas amizades e quer amar o amor.
Fortaleza, o que eu quero te dar de presente é um futuro em que o outro não é seja visto nunca como ameaça, mas uma possibilidade, pois afinal, inventamos cidades para nos encontrar e não para nos separar.
Que nossa Fortaleza seja encontro e mistura, cuidado e alegria.





