Chapada do Araripe: agronegócio desmata e ameaça "caixa d´água do sertão"

04/02/26 10:00

Enquanto o desmatamento no Brasil caiu entre os anos de 2023 e 2024, a Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe, nova fronteira do avanço do agronegócio no Ceará, manteve altos índices de devastação no mesmo período e ocupa o terceiro lugar entre as áreas de conservação mais desmatadas do país. Segundo o Relatório Anual de Desmatamento (RAD 2024) da rede global MapBiomas, o desmatamento no Brasil diminuiu mais de 30% em 2024 na comparação com 2023, totalizando 1,24 milhão de hectares. A APA da chapada, no entanto, não acompanhou a tendência e teve 5.965 hectares desmatados, praticamente o mesmo número do ano anterior (5.900 hectares).

Em pronunciamento na Assembleia Legislativa na última terça-feira (03), o deputado estadual Renato Roseno (Psol) destacou a importância da defesa de áreas de conservação ambiental e do combate ao desmatamento na Chapada do Araripe, provocado por empreendimentos do agronegócio voltados às monoculturas da soja e do algodão. “Além das áreas já desmatadas, a imprensa especula sobre a possível comercialização de cerca de 20 mil hectares para soja e algodão. São quilômetros e quilômetros de devastação com apoio governamental, numa área que é fundamental para a biodiversidade e para a segurança hídrica do Sul do Ceará", destacou.

Renato Roseno anunciou a intenção de criar uma Frente Parlamentar em Defesa da Chapada do Araripe, com o objetivo de desenvolver ações para conter o avanço do desmatamento. “Já entrei também em contato com a Assembleia Legislativa de Pernambuco e, junto a demais setores e lideranças, buscamos uma articulação interestadual voltada à preservação da Chapada do Araripe”, ressaltou. Para o deputado, a crise ambiental é um problema global e o Ceará, ainda assim, incentiva práticas deletérias do agronegócio. “Em um país em crise, crescer economicamente significa promover desenvolvimento com justiça social e respeito à natureza. A expansão da fronteira do agronegócio gera destruição ambiental e concentração de riqueza, o oposto de uma agricultura sustentável”, frisou.

O parlamentar também ressaltou a participação dos municípios da região no licenciamento ambiental. Dos 14 municípios que integram a APA, seis estão aptos a realizar licenciamento ambiental de atividades de impacto local. E é justamente nesses municípios que se concentra a maior parte dos desmatamentos na região (61%), o que comprova que a transferência do licenciamento para o âmbito municipal ainda é marcada pela fragilidade e precariedade do processo. "Nós defendemos a autonomia dos municípios, mas é preciso também oferecer segurança jurídica e ambiental para o Ceará", afirmou Renato, que é autor de PEC aprovada na ALECE que regulamenta a atuação de órgãos ambientais dos municípios no licenciamento das intervenções de impacto local.

Em abril do ano passado, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) deflagrou a Operação Guardiões da Chapada do Araripe com o objetivo de conter os elevados índices de desmatamento na APA da Chapada do Araripe. A operação foi coordenada pela Coordenação de Fiscalização, em Brasília (DF), com apoio do Núcleo de Gestão Integrada ICMBio Araripe e da Gerência Regional Nordeste. Entre 2022 e 2025, a unidade de conservação apresentou mais de 1.500 alertas de desmatamento, totalizando mais de 12.000 hectares desmatados.

Em outubro de 2025, a Polícia Federal também realizou ações contra o desmatamento na região. A Operação Woodtrack ocorreu em Crato, Barbalha, Brejo Santo e Araripe, com foco na APA da Chapada do Araripe. Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em locais com indícios de desmatamento ilegal, além de serrarias e madeireiras já investigadas por irregularidades ambientais. Houve autuações, apreensão de material florestal e embargo de atividades.

Importância da Chapada

Localizada na divisa entre Ceará, Pernambuco e Piauí, a Chapada do Araripe é uma região muito abundante de recursos hídricos. Não à toa, é chamada de “caixa d’água do Sertão”. Planície composta por 38 municípios, ela chega a uma altitude de até mil metros, com nascentes importantes e uma bacia sedimentar com águas subterrâneas. Desde 2017, a região é definida como Área de Proteção Ambiental (APA). “A chapada absorve a água da chuva e serve como uma ‘esponja’, contribuindo com a recarga de aquíferos da região”, explicou o professor Társio Alves, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Abelhas (Nupea) do Instituto Federal Sertão Pernambucano – Campus Ouricuri, em entrevista ao portal Brasil de Fato.

A proteção ambiental permite a ocupação humana do espaço de forma sustentável. Mas nos últimos anos, o avanço de monoculturas como soja e algodão vem despertando a preocupação de ambientalistas e da população local em função da ameaça que representa para o equilíbrio ambiental da região. Para Alves, essa expansão abre a possibilidade de repetição de uso irracional dos recursos naturais. “A expansão das fronteiras agrícolas com plantios em grandes escalas de monoculturas deixa a população do território apreensiva com os possíveis impactos”, afirma ao citar queimadas, desmatamentos e uso de agrotóxicos em larga escala. (Texto: Felipe Araújo / Foto: Divulgação-PF)

(Texto: Felipe Araújo / Foto:

Áreas de atuação: Meio ambiente